quinta-feira, 14 de junho de 2012

Elvira Viegas – The Best of Elvira Viegas (Venho de Longe)


A carreira de Elvira Viegas dentro da Música Ligeira Moçambicana é ímpar. Dentre todos os artistas conotados com aquele género é a mais distinta. E entre as 3 grandes divas da Música Ligeira Moçambicana, Zaida Chongo, Elsa Mangue e ela (Elvira Viegas) – se considerarmos que Mingas sempre esteve mais na “Música Moçambicana Internacional” do que propriamente na Música Ligeira Moçambicana – ela é a mais consciente e mais serena.

Ao estilo pomposo e escandaloso de Zaida Chongo e à natureza depressiva-autodestrutiva de Elsa Mangue, Elvira Viegas opõe consciência e serenidade e sobriedade.

Dentro da crença e prática moçambicana da arte como uma arte educativa, Elvira Viegas é quem mais se destaca. A Música Moçambicana sempre foi rica em artistas loucos, extravagantes, rebeldes, desesperados, provocadores, moderados, conservadores, temperados e, ultimamente, engraxadores do poder político, enfim, sempre teve artistas de toda estirpe lírica e de atitudes variadas, mas nenhum chegou aos pés de Elvira Viegas como artista educadora. Elvira Viegas é única.

Tal qual é único o seu estilo, que mistura a Marrabenta e o Afro-Pop, criando um estilo suave, mas, forte, dinâmico e pulsante. Por outro lado, o canto dela, simplesmente, é o melhor (dentre o género feminino) que se encontra dentro da Música Ligeira Moçambicana.

Este The Best of Elvira Viegas, que, como sugere o título, apresenta as melhores de Elvira Viegas, não é simplesmente um exercício de recolha das melhores músicas da cantora, tal qual foram gravadas originalmente, para serem relançadas num único disco. As músicas foram regravadas para este álbum.

E nesta regravação as músicas são embaladas pelo som sombrio do teclado de Pipas, que, à entrega apaixonada de Elvira Viegas, acrescenta melancolia, deixando as músicas tensas, magníficas, em catarse, no entanto, no limiar da tristeza, da falta de ritmo e da pregação de Moral, e só lá não caem graças aos outros executantes, Stélio Zoe, Carlitos Gove Manuel de Jesus, Sacre, Pacha Viegas e o grande Sox, que mantém a música viva e focada. Fantástico! Assombroso!

Ainda em relação aos artistas, finda a audição deste The Best of Elvira, fica-se com uma certeza: Sizaquiel e Jenny são grandes vocalistas de apoio.

Um grande disco este.


por Niosta Cossa





http://www.mediafire.com/?bbmtqqgq2jpyjr8

Avelino Mondlane – Uniukuele



Na capa do álbum Rima a Nsimo Yawena, de 1994, editado pela RM, escreve-se que “Avelino Mondlane é rotulado pelos críticos e apreciadores da música ligeira moçambicana como ROMÂNTICO , só que Avelino não é apenas isso. Ele é um dos cantores, compositores e intérpretes moçambicanos com mais experiência nos temas de cariz social. De resto, não é fácil demarcar nas suas canções, a barreira entre o amor e os problemas sociais que dilaceram os lares”. E se escreve com conhecimento profundo da obra do artista.



Definitivamente, aquela afirmação é que melhor resume a temática e a orientação musical de Avelino Mondlane, um artista que procura pureza e sentimento nos lares e/ou relacionamentos e que realça o amor e o perdão como caminhos para a felicidade e harmonia social.

Rima a Nsimo Yawena é a sua obra-prima, no entanto, este Uniukuele, de 2002, é um bom álbum. A produção sombria de Humbe Benedito, para o bem e para o mal, acaba dando sentido às composições de Avelino Mondlane. E músicas como a que dá título ao álbum, “Mutxela Ussiwana” e “Amutxai” valem repetidas audições.

por Niosta Cossa
 

 http://www.4shared.com/rar/B5vavdVD/AM_-_U__2002_.html

Miriam Makeba – Miriam Makeba



Este Miriam Makeba, de 1960, é uma mistura de ritmos sul-africanos com o Soul americano. E, tal qual em todos os álbuns divinamente concebidos e superiormente executados, em que misturas do género são experimentadas – mistura de duas culturas e/ou realidades e/ou géneros musicais de continentes diferentes –, o álbum é mágico.

Fora a verdadeira força da natureza que éra a Mama Africa, seu talento vocal éra excepcional – provavelmente a maior intérprete dentre todos os africanos. Todavia, como só força e talento não bastam para se fazer um grande álbum, as músicas deste Miriam Makeba são de grande qualidade, e fazem a distância restante que separa o puro talento da grandeza.

É dos maiores da Música Africana, onde África e o Ocidente cruzam-se magistral e naturalmente. Foi o de estreia da distinta Miriam Makeba e é um marco da Música Africana.


por Niosta Cossa


Eusébio “Zeburane” Tamele – Músicas de Zeburane



O grande Zeburane. Genial compositor de Música Moçambicana, o tal de quem se diz ter sido bluesman e também à quem se atribui inspiração nas cantigas de escárnio e mal-dizer e nas cantigas de amigo (http://wwwnantchite.blogspot.com/2009/04/eusebio-johane-tamele-um-trovador-e.html).

Portanto, a sua origem ou a sua natureza, essa é a particularidade da música de Zeburane. De Zeburane e não só; de todos os artistas moçambicanos que ajudaram a moldar e definir a Música Ligeira Moçambicana; pois, se os que vieram após eles inspiraram-se neles (Zeburane e companhia), e eles?, em quem se inspiraram?

As duas músicas deste pacote – “Bava A Nga Pswalanga” e “Tsunela Seyo” –, se não respondem cabalmente, pelo menos, deixam uma sugestão do que é a resposta.

Quanto ao facto de Zeburane ser bluesman, essa é uma questão debatível (e falseável). Zeburane é bluesman ou o Blues derivou de ritmos africanos, exactamente esses ritmos que Zeburane canta? Se, por um lado, “Bava A Nga Pswalanga” é marcadamente “blues”, por outro lado, não se pode negar que essa música e “Tsunela Seyo” têm a mesma origem. Basta escutar-se as duas músicas e apanhar-se a cadência e andamento do baixo. A primeira apenas é, de alguma forma, mais lenta do que a segunda, entretanto, reduzindo-se a velocidade da segunda ou acelerando-se a primeira, conclui-se que são o mesmo ritmo, e que não são Blues, mas, sim, pura Música Moçambicana.

Em relação à conotação da sua temática com as cantigas de escárnio e mal-dizer e com as cantigas de amigo, essas, são inegáveis. Embora não se possa descartar que Zeburane apenas fosse um artista pornográfico e não um educador da sociedade. Afinal, os artistas são artistas, não são educadores da sociedade como os moçambicanos querem ou contam que sejam.

De qualquer das maneiras, Zeburane éra um artista genial, profundo, e dos mais estimulantes que Moçambique gerou. Fora as suas origens, estas duas músicas são duas obras-primas da discografia moçambicana.


por Niosta Cossa


Fany Mpfumo – Nyoxanini


O homem que foi coroado Rei da Marrabenta ou a colectânea das suas melhores músicas. Seja uma ou outra coisa, o adjectivo é o mesmo: uma preciosidade. O álbum, contendo 18 clássicos indisputados de toda a Música Moçambicana, é uma obra-prima.

Fora os discos próprios que veio a gravar, neste disco se pode perceber porquê Alexandre Langa é um dos maiores guitarristas moçambicanos – se não for o maior. A técnica e o estilo são únicos; o som da guitarra é dos mais facilmente reconhecíveis na Música Moçambicana; aliás, o seu vocabulário guitarrístico tornou-se a base do que veio a ser conhecido como Música Ligeira Moçambicana. Éra muita qualidade junta para que não se produzisse ouro e magia: Alexandre Langa e Fany Mpfumo.

Tal qual em todos os grandes compositores moçambicanos, o desespero, a frustração, o abandono se manifestam pela música de Fany Mpfumo. O velho Mpfumo, como compositor éra brilhante e imaginativo; éra um grande criador e contador de estórias; porém, éra simples e imediato. Entretanto, o canto sincero e sentido do velho e a guitarra de Alexandre Langa conferiam toda profundidade possível à músicas simples, curtas e imediatas.

 Este disco, do início ao fim, é repleto de clássicos. “King Marracuene” (um ataque mordaz à Dilon Djindji, na “disputa” do pelo título de Rei da Marrabenta) é uma obra-prima absoluta: provocadora, densa, vibrante, chocante; ainda hoje afecta à quem a escute e perceba. A interpretação que é dada à “Hodi” é fabulosa e incomparável. “Mabuno”, “Dambu Dri Pelile” e “Nita Kukhoma hi Kwini” são geniais. “Hunga Hlupheki” é uma balada linda, uma jura de amor simples mas que desarma os corações. “Nyoxanini”, que acaba dando título à colectânea, é outra obra-prima; música triste que exorta à alegria. “A Vasati va Lomu” é brilhante, tal qual “Bata Famba ba Ndrisiya”, “A Lirhandru” e “Nichelelani”.

Enfim, este é o disco definitivo do homem-careca mágico, filho de Jeová – como o próprio se auto-intitulou.


por Niosta Cossa

 
 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Chico António – Músicas de Chico António


O génio de Chico António. É o que este pacote de 3 músicas tem por oferecer. O incomparável talento de um dos maiores compositores moçambicanos.

São 3 grandes músicas, afro-pop-psicadélicas, ao melhor estilo de Chico António, gravadas entre a década 1980 e o início da década 1990.

A primeira música do pacote é “Antlissa Maria”, uma apologia ao regresso, de Maputo urbanizada para Gaza rural, para lá se levar uma vida desapegada das coisas materiais e despojada de luxos e modas citadinas, trabalhando-se no cultivo da terra e na criação de animais.

A segunda (“Mercandonga”) é pura psicadelia, um synth-afro, retratando a candonga que se vivia nos mercados alimentares moçambicanos da década 1980.

A música que fecha o pacote é “Baila Maria”, a tal música que ganhou o Prémio Descobertas da Rádio França Internacional, uma balada romântica que desenvolve para Afrobeat e termina em marrabenta-psicadelia, onde se destaca a exuberância de Mingas no canto. Genial! [Entretanto, há que reconhecer-se que o Grupo RM levou uma grande música para a França (esta versão) e de lá voltou com uma obra-prima (a versão contida no álbum Cineta)].

por Niosta Cossa




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Orquestra Marrabenta Star de Moçambique – Marrabenta Piquenique


O segundo álbum da grandiosa Orquestra da Rádio Moçambique. Marrabenta Piquenique. O título (Piquenique) e o som e a exuberância do álbum soam mesmo como se fosse o álbum de despedida de uma grande banda. Efectivamente, acabou sendo mesmo a despedida da orquestra – bom, pelo menos, para a sua composição clássica: a morte levou os geniais Sox e José Guimarães, o tempo envelheceu os fabulosos Wazimbo e Zeca Tcheco.

Outro grande álbum da Orquestra Marrabenta, outra grande obra no catálogo da Música Moçambicana, outro brilhante disco aparecido na década de 1990.

Em questões de composições e performance, este álbum é uma continuação da fórmula usada em Independance. No entanto, há uma grande diferença entre os dois álbuns. O som deste álbum é directo e brutal onde, em Independance, éra detalhado e polido. E as músicas de Marrabenta Piquenique são mais imediatas e descomprometidas, para além de que são misturadas com outros ritmos não-moçambicanos – como o Soukous e o Chimurenga. Aqui não se dão muitas voltas; vai-se directo ao assunto (e ao groove).

Um brilhante álbum, este de 1996, sem músicas más. O que de mal se pode apontar ao álbum é a colocação de “A Vasati va Lomu” (brilhantemente interpretada por Mingas) como a quarta música da lista. Esta música, ainda que brilhante, é tão lenta, tão morta, que acaba completamente desenquadrada após aquele grande início (com “Wene U’nga Yale”, “Matilde” e “Sobremesa”, o melhor início de um álbum moçambicano). A versão eléctrica de “Nwahulwana” é também grande, e muito mais poderosa do que a clássica versão acústica de Independance; e, já lá no fim, quando entra a bateria, a música transcende.

Esta grande orquestra de Marrabenta não voltará, ainda que reinventada, mas as suas obras permanecerão. E este Piquenique para sempre estará aqui.


por Niosta Cossa




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Khronic – Músicas de Khronic




A atitude “I don’t give a fuck/I’m ready to die”, imortalizada por 2Pac e Notorious BIG, em Moçambique, apenas em Khronic encontrou um herdeiro digno e alguém que soube aprofundá-la e prolonga-la, longe de limitar-se a copia-la cegamente.

Antes do regresso do inferno em grande de Duas Caras, e bem antes do Album Nu, Khronic foi quem introduziu o confessionalismo no Hip-Hop Moçambicano. Foi o primeiro a expor, de maneira aberta e honesta, as suas misérias, suas desgraças e seus demónios. E mesmo dentro de toda a Música Moçambicana, a única que talvez rivalize com ele é Elsa Mangue.

Também foi o primeiro – e único, até agora – a abordar, com franqueza e coragem, e também a aceitar o tema “morte”.

Profundo e rebelde, desesperado e cheio de atitude, do que a Música Moçambicana tem por oferecer, só Zeca Alage, Jeremias Ngwenha, Joaquim Macuácua e Duas Caras se comparam ao criativo e original rapper da Fundação, Bairro da Malhangalene.

O pacote de músicas aqui presente contém 4 obras-primas do Hip-Hop e da Música Moçambicana – “Cinzas e Pó”, “Música e Rua”, “É Assim que Essas Coisas São” e “Terra Prometida” (esta última com Plus) –  gravadas entre o início da década 2000 e 2007. O testemunho do talento de um dos melhores rappers que Moçambique produziu.

por Niosta Cossa




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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Jimmy Dludlu – Essence of Rhythm


Essence of Rhythm soa como um album de um artista que não tem certeza sobre que rumo seguir. Só as primeiras quatro músicas são tão distintas umas das outras que não se descortina nem o tom nem o ritmo do álbum – o prelúdio é verdadeiro Soukous; “So Close Yet So Far Away” é puro Jazz; “Point of View” é Jimmy Dludlu no seu melhor, agarrado às suas raízes afro; “Wish You Were Here” é neo-psicadélica.

Entende-se. Depois de Echoes from the Past, que foi o seu primeiro álbum (à solo) e um sucesso, Mr. Dludlu tenta seguir sua própria voz, seu próprio estilo, procurando evitar, no máximo possível, similaridades e comparações com o álbum anterior. Por isso faz várias experimentações, algumas bem estranhas, como “Makonde” e “Freedom Song”.

Este é um álbum incaracterístico e menos conseguido do que o anterior. Mas tem grandes momentos – “Point of View” e “Mr. Mokoena” são obras-primas.

De qualquer das maneiras, um álbum de Jimmy Dludlu sempre vale uma audição, se não pelas músicas, pela competência e graça dos instrumentistas. Fora isso, Essence of Rhythm, de 1999, vale ainda como o anúncio do que viria a seguir em Afrocentric.


por Niosta Cossa





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Alfredo Mulhui – Se U Khohlwile


Definitivamente, os álbuns da Música Ligeira Moçambicana, com excepção de pouquíssimos, não são de fácil travessia. Se U khhlwile, de Alfredo Muhlui é mais uma prova disso. Não é fácil.

Ainda que Alfredo Mulhui fosse assumidamente um artista de Reggae, Se U Khohlwile tem pouco de Reggae. É mesmo um álbum da Música Ligeira Moçambicana.

E, no álbum, o Gigante de Manjacaze – como uma vez o apelidou o extinto jornal O Campeão – incluiu aquela que talvez seja a sua melhor música, a que dá título ao álbum. De seguida, por via do alinhamento desastroso que se deu ao álbum, aparecem duas músicas lentas e mortas – a balada “Paulina” e a reggae “Quero Você” –, que realmente não colaboram para a compreensão do álbum. Não que as músicas sejam más – a primeira, aprticularmente, é boa –, é que estão na posição errada e dificultam a audição deste Se U Khohlwile – uma das características dos álbuns da Música Ligeira Moçambicana, infelizmente, é a desorganização e o desastre que são o alinhamento (e o trabalho gráfico e a maneira, pouco séria, com que se aborda a ficha técnica) dos álbuns.

Apesar das falhas e da desorganização, sem esquecer o facto de este não é o melhor Alfredo Mulhui, Se U Khohlwile consegue ser um bom álbum.

Vale por momentos como “Se U Khohlwile”, “Mundhavazane”, “Ungahembi” e “Leonor”. E vale também pelos ataques de Alfredo Mulhui  ao pai (em defesa da mãe) – numa altura em que, em Moçambique, ainda não se falava (com tanto ruído e alarme) sobre a Lei da Família nem sobre a violência doméstica.


por Niosta Cossa

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Fernando Chivure – Fofoqueira


Fofoqueira é um álbum da Música Ligeira Moçambicana. É um álbum de Fernando Chivure e carrega os temas que foram recorrentes na carreira do autor: as relações familiares e as intrigas entre vizinhos.

Dos cantores moçambicanos, existem três que têm vozes tristes e cantos dramáticos que, praticamente, tornam obscuras e tristes todas as músicas que interpretam: Roberto Chitsondzo, Elsa Mangue e Fernando Chivure. Por isso Fofoqueira é um álbum triste, o que é agravado pela falta de ritmo das músicas e pela lúgubre produção de Humbe Benedito – que também toca todos os instrumentos usados para registar o álbum.

Não é um álbum fácil de se atravessar este, e precisa de muitas audições para se perceber sua essência. Mesmo assim, tem momentos que justificam (ou compensam) a travessia pelo álbum, como a música que dá título ao álbum, “Mukonwana”, ”Waxeni Xaweni”  e “Munti wa Wussiwana”. Esta última, aliás, é uma grande música, a melhor do álbum, só que peca por ser desnecessariamente repetitiva, o que a torna longa mais do que o necessário.

A Música Ligeira Moçambicana tem a particularidade de ter como forte, ou como mais importante, a letra, em detrimento do ritmo, ou da instrumentalização – o que prejudica a(s) própria(s) música(s) – então, quem desconhece a língua em que se canta, “arrisca-se” a desvaloriza-la. Fofoqueira, tal como toda a Música Ligeira Moçambicana, está sob esta condição, daí que não seja uma audição fácil.

Entretanto, recomenda-se.


por Niosta Cossa


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Baden Powell & Vinícius de Moraes – Os Afro-Sambas de Baden e Vinícius


O extravagante poeta Vinícius de Moeta com o quieto guitarrista Baden Powell mais o Quarteto em Cy, numa das maiores, mais duradoiras e ímpares obras-primas da Música Brasileira: Os Fro-Sambas de Baden e Vinícius.

Um álbum belo, espontâneo e infinitamente criativo, mescla inacreditável de alegria (derivada da efervescência do Samba) e tristeza (advinda dos cantos afro-brasileiros da Bahia). A sonoridade é mágica: capoeira, candomblé, samba misturados num som distinto, melodioso e melancólico, criado por Baden Powell. E, liricamente, é Vinícius de Moraes com referências recorrentes à divindades negras-africanas (os Orixás, no geral, e Xangô, Iemanjá e Exu, em particular), belos poemas e aforismos sobre a natureza do amor. O canto, esse, é descontraído e harmonioso, à cargo de Vinícius e do deslumbrante Quarteto em Cy, mais o “coro da amizade” – “nesse coro estão presentes Eliana Sabino, filha do escritor Fernando Sabino, Betty Faria, iniciando sua carreira artística no teatro e na dança, Tereza Drumond, namorada de Baden, Nelita, então esposa de Vinicius, Dr. César Augusto Parga Proença, psiquiatra e o médico Otto Gonçalves Filho” (http://www.luizamerico.com.br/fundamentais-baden-vinicius.php), pois, “a intenção apesar dos arranjos elaborados, era dar um tratamento simples, despojado e espontâneo a gravação” (idem).

É um estranho e petrificante e, no fim da audição, gratificante, este Os Afro-Sambas de Baden e Vinícius, álbum de 1966.

A concepção do álbum, criado para ser profundo enquanto soa à lúdico e ao mesmo tempo acessível, fundindo afro-ritmos com o samba acusticamente é ousada o quanto baste, mas funciona – quase 10 anos depois, Gilberto e Jorge Bem tentaram a mesma fórmula com músicas mais longas, mais loucas, mais secas e sem coristas, mas igualmente profundas e grandiosas.

Os Afro-Sambas de Baden e Vinícius vale tanto pela fórmula bem como pelas músicas. Individualmente cada música é única e uma preciosidade. “Tempo de Amor” é tão bonita, tão triste, tão desesperada e redentora quanto “Canto de Xangô” é inspiradora e reafirmadora da vida. “Canto de Iemanjá” e “Bocoché” são calmos e imponentes odes à Iemanjá, seguidos, um após o outro. “Canto de Ossanha”, para além de ser uma obra-prima, abre o álbum e o resume em si: tudo que vem a seguir, ainda que carregando identidade própria, é um pouco desta música.

Simples, inovador, continuamente surpreendente, Os Afro-Sambas de Baden e Vinícius mantém-se actual. O que não espanta: é uma obra-prima genuína.


por Niosta Cossa



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Carlos e Zaida Chongo – Sibo


O que Neil Young escreveu sobre Johnny Rotten, “The king is gone but he’s not forgotten/ This is the story of a Johnny Rotten” [“My My, Hey Hey (Out of the Blue)”], adapta-se muito bem para a história de Zaida Chongo: a rainha se foi mas jamais será esquecida, a grande e única Zaida Chongo!

É 1997, é o primeiro álbum do casal Chongo, o início de um ciclo de álbuns que mudaram e animaram a Música Ligeira Moçambicana.

A Música Moçambicana – falo aqui da música executada com instrumentos ao vivo (excluindo o Pandza e o Hip-Hop e outros géneros e subgéneros juvenis aparecidos na segunda metade da década de 1990 e inícios da década de 2000) tem uma subtil particularidade: ela está dividida. Usando expressões grosseiras, por um lado, tem a música para exportação – de artistas “virados” para o estrangeiro (nos três sentidos, o primeiro, de estarem influenciados por estéticas da música ocidental e africana mundialmente famosa, por exemplo, nos detalhes; nas variações; por vezes, na composição sucinta pop do verso-coro-verso, noutras vezes, na fórmula fela-kutiana longa e descomprometida; e na maneira com fazem as improvisações dos solos; o segundo, de a sua música ter, como alvo preferencial os mercados estrangeiros; e o terceiro, de gravarem nos estúdios estrangeiros, e até lançarem por editoras estrangeiras) cuja música é mais artística, mais complexa, mais detalhada, mais intelectual, mais polida, como os Ghorwane, Kapa Dêch, Eyuphuro, Jimmy Dludlu, as duas versões do Grupo RM (Orquestra Marrabenta Star de Moçambique e Amoya) – e tem a música interna – “música feita para consumo doméstico” de artistas cuja música, ainda que influenciada pela música ocidental, é basicamente tradicional, e é mais directa, linear, simples, bruta, crua, popular, (usualmente gravada em estúdios nacionais, e lançada por editoras nacionais) como Pfani Mpfumo, Eusébio “Zeburane” Tamele, Alberto Mutcheca, Francisco Mahecuane, Alexandre Langa. À esta música interna, vulgarmente, chamam Música Ligeira Moçambicana – com o tempo darei mais detalhes e características da Música Moçambicana.

Carlos Chongo, a força criativa por detrás do duo, éra um herdeiro dos últimos. As suas músicas eram directas, simples, brutas, cruas. Entretanto, tinham uma vibração e um apelo, que não se encontram em nenhum artista antes dele (e ainda não se encontraram em nenhum depois dele). Ou melhor, seu estilo é melhor definido no www.macua.org: “Carlos Chongo é produto da fusão entre a música tradicional "shangana" e a Marrabenta” (http://www.macua.org/mp3/sibo.html).

Aquelas características, que já eram únicas, tornaram-se ainda mais distintas e superiores com a presença e atitude de Zaida Chongo, a mais extravagante, mais provocadora, mais polémica, mais contestada e mais aplaudida dos artistas moçambicanos.

Zaida, entanto que vocalista, éra como a música de Carlos: simples, directa, crua; não tinha grande técnica e sua voz não éra bonita. Mas a sua entrega e o seu canto são dos mais excitantes que se encontram em toda a Música Moçambicana. E quando combinavam as vozes, ela e Carlos, criavam algo que de belo não tinha muito, mas que excedia em poder e sedução. Por outro lado, em cima do palco, Zaida Chongo éra imbatível. Aliás, de lá veio boa parte da sua notoriedade. Éra uma grande dançarina. E muito escandalosa.

A banda que os acompanhava éra muito forte. Como guitarrista, Carlos Chongo tinha um técnica e som únicos, e a secção rítmica, composta de Fernando Mavume e Xavier Nhantumbo, éra poderosa; eles é que mantinham a música vibrante e em grande nível.

Particularmente, este álbum tem um grande início. A primeira metade do álbum é formidável. “Hahela”, “Sibo”, “Psikoxana Psa Xaniseka”, “A Wansati” e “Ningue Psikhopsi” são grandes músicas. A segunda metade não é tão impressionante quanto a primeira mas também é forte – onde sobressaem “Ku Tsemba Munu”, “Machele” e “Ungani Tequeli Nuna”.

Sibo, a obra inicial de uma grande banda, é um grande álbum. Outro produto de qualidade de uma grande década para a Música Moçambicana. E este álbum convence logo na quarta música, onde, quando Carlos canta “a wansati” (“a mulher”), Zaida junta-se à ele e afirma “juro, angana tsembo” (“juro, não merece confiança” – em casos de amor, namoros, casamentos); e mais adiante vai ainda mais longe quando Carlos afirma “ku tsemba wansati” (“confiar numa mulher” e ela responde “hoti boha goda hi weshi” (“é suicidar-se”). É Zaida, sim, uma mulher, quem canta estes versos!

Realmente, Zaida Chongo, artisticamente, éra profissional e descomprometida (para além de talentosa). Qualidades que, actualmente, muito raramente se encontram no campo feminino da Música Moçambicana.


por Niosta Cossa



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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Wazimbo – Makwêru



Makwêru, sonoramente, é diferente e distante de tudo o que Wazimbo fizera com a Orquestra Marrabenta Star. É mais lento e mais introspectivo do que Independance e Marrabenta Piquenique. E as letras são menos espontâneas, menos lúdicas, e mais elaboradas do que antes na carreira de Wazimbo pós-independência.

Este álbum já não é Marrabenta apenas. É um cruzamento entre Djuma Mukatsika, o Afro-Jazz, a Música Pop e a Marrabenta.

Aqui fica mais claro que Wazimbo é mesmo o maior vocalista moçambicano do nosso tempo – com o devido respeito e vénia por Tony Django. Não tem que ver apenas com cantar bonito, coisa que ele fazia acima de (quase) todos os moçambicanos. A maneira como canta as palavras, o jeito com que as insufla de vida, o jogo que faz entre elas e a melodia que cria, não têm par em Moçambique. Vai e volta dos suspiros e gritos, e passa tanto pelos tons graves como pelos agudos, com a mesma qualidade e maravilhosamente.

Portanto, só a qualidade de Wazimbo garante metade da boa ventura deste Makwêru. Mas o álbum não acaba aí. É uma obra-prima. Álbum de 1998, é mais um grande produto da gloriosa década de 1990.

Começa brilhantemente, com o chamado para a preservação do meio ambiente e para práticas urbanas (mais) saudáveis (“Mambatxi”), continua com categoria, sem uma música má pelo meio, até a última música, que dá título ao álbum, uma balada criada por Sox e interpretada superiormente por Wazimbo. “Makwêru” resume todo álbum em si e, ao mesmo tempo, o eclipsa com sua beleza e grandeza. Uma obra-prima genuína, das melhores músicas moçambicanas.

Grande Humberto Benfica!


por Niosta Cossa


Tito Paris – Live in Lisbon


Tito Paris, ao vivo, em Lisboa, cantando algumas das músicas cabo-verdianas que marcaram gerações e momentos.

De resto, Tito Paris e sua voz (e seus suspensórios) são sempre um grande acontecimento, e, no Club B. Leza, se apresentam em boa forma.

É um excelente espectáculo de música cabo-verdiana este, de 1998, aliás, um excelente espectáculo de Música Africana, onde ao clássico “Sodade” é dada roupagem latina, e pontificam a funaná “Nhor Deus”, a influenciada-por-Reggae “O Pretinha”, a bela “Marina” e as obras-primas “Curti Bo Life” e “Dança Ma Mi Criola”.

Escutar Tito Paris sempre vale a pena, e, aqui, neste Live in Lisbon, acompanhado com graça e excelência, produz dos melhores concertos de artistas lusófonos africanos.


por Niosta Cossa




quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fela Kuti & Afrika 70 with Ginger Baker – Live!


Fela Kuti, em 1971, com o (na altura já) ex-baterista dos Cream, Ginger Baker. Eles cruzam-se e criam um som funk e afro o bastante para que as músicas tenham vida e ritmo, marcadas por passagens instrumentais, onde os instrumentistas vão alimentando a música e os ouvintes com seus talentos – principalmente os bateristas, Tony Allen e Ginger Baker.

A voz e canto de Fela Kuti estão melhores do que nunca; os Afrika 70 estão impecáveis; Ginger Bker está inspirado; as composições, para além de brilhantes, são das mais acessíveis e brilhantes que Kuti fez – ainda que longas; e estão a tocar ao vivo. Resultado: um dos melhores álbuns que o espírito humano tem para oferecer.

O espectáculo abre com força e em grande, quente,, com “Let’s Start”, e não pára nem esfria até ao final. Os gritos roucos de fela Kuti são inspiradores, e toda vibração e excitação da primeira música passam para a segunda,  outra música brilhante, “Black Man’s Cry”. Ainda assim, “Ye Ye De Smell” consegue ser melhor do que as duas primeiras músicas. Por fim, “Egbe Mi O” é uma poderosa música, com sabor jazz, vibração funk e apelo afro, que culmina com os “la la la la” e termina em êxtase o espectáculo, com sopros e excitantes gritos de Fela Kuti “Egbe mi o!!”, “Egbe mi o!!”, “Egbe mi o!!” (“Carregue-me que eu quero morrer!!”, “Carregue-me que eu quero morrer!!”, “Carregue-me que eu quero morrer!!”).

Este é realmente um álbum fantástico, maravilhoso, inspirado. Daqueles onde artistas de diferentes e distantes lugares cruzam-se e produzem magia. Um álbum grandioso que não foi repetido nem ultrapassado nem mesmo pelo grande Fela Kuti. Nem podia, afinal aqui tinha Ginger Baker – sem desmerecer Tony Allen – e uma inspiração sem fim – para além de que álbuns lendários são álbuns lendários, não são facilmente emuláveis.

por Niosta Cossa




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Thomas Chauke na Shinyori Sisters – Xidudla Kedibone (Shimatsatsa N° 25)


Se o melhor álbum de Thomas Chauke não for Bangi Situlu (Shimatsatsa Vol. 17), concerteza é Xidudla Kedibone (Shimatsatsa Vol. 25).

Xidudla Kedibone chega com Thomas Chauke totalmente definido sonoramente e ainda assim é surpreendente. As Shinyori Sisters – Conny Chauke, Ethel Chauke, Lucia Chauke, Evah Chauke e Florance Chauke – mantêm-se no seu (elevado) nível, perfeitas e cativantes. A guitarra de Thomas Chauke, o baixo de Thomas Mathonsi e a banda continuam em forma. O que mudou, para este álbum, foram as composições.

As músicas, em Xidudla Kedibone, estão mais secas, graves, entre a dança e a introspecção. As próprias melodias são mais melancólicas, alienadas – principalmente em “Macheleni”, “U Ta Dya Yini”, “Matiphina”, “Tidolla” e “Khombo”. Até mesmo as músicas concebidas para serem bem-humoradas – como “Haholova”, “Kedibone”, “Madyisa” e “Mafemani” – estão imbuídas de um humor perverso, triste, ressentido.

É um álbum negro, sinistro e desesperado, melancólico e alienado. É também uma obra-prima revigorante e reconfortante, por detrás de toda melancolia que transporta. É Magika no seu melhor, como em poucos álbuns se encontra.


por Niosta Cossa


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Gpro – Um Passo em Frente


O álbum que eternizou Duas Caras, e que colocou o Hip-Hop feito em Moçambique no mercado musical, nacional e internacional, como uma alternativa viável (e de sucesso). Este é também o álbum que transformou 100 Paus (ou Sem Paus) numa figura de culto, e que levou a Gpro ao topo do Hip-Hop Moçambicano.

Duas Caras éra bom demais, e, de imediato, foi aplaudido e reconhecido como o melhor MC que existia em solo moçambicano – à par de Flash Encyclopédia. Esta foi, na verdade, a sua primeira encarnação, antes de abandonar o Hip-Hop para à ele retornar, melhor e mais forte do que antes – desta vez, sim, como o melhor MC Moçambicano, visto que Flash parou no tempo.

100 Paus, em frente ao microfone, não éra tão bom quanto Duas Caras, e suas letras não eram criativas e desconcertantes quanto às do parceiro, mas éra eficiente, competente, o complemento perfeito para Duas Caras. Entretanto, no campo das produções, éra totalmente imbatível; (ainda hoje é) dos pouquíssimos produtores de Hip-Hop moçambicanos originais, identificáveis logo à primeira audição.

Produziu ouro puro a Gpro neste álbum, uma obra-prima da Música Moçambicana, contendo o clássico “País da Marrabenta”; a adorável “Jardins Proibidos Pt 2”, construída em volta de “I’ve Got a Song in My Heart” de Sara Tavares; a festiva “Gpro Show”, samplada de “Area Codes” de Ludacris (com participação de N’Star); a obra-prima “Kanimambo”; a genial “Interesseiras” (com a Dinastia Bantu); e a inspiradora “Até ao Fim” (feita com 3H e Master Bad).

Contrariamente ao que diz 100 Paus na música “Um Passo em Frente” – e também contrariamente ao que dizem muitos amantes e seguidores do Hip-Hop Moçambicano –, este não é o primeiro álbum de Hip-Hop Moçambicano por exemplo, os OKV já haviam lançado um álbum de Hip-Hop/Pop nos anos 1990; Fill Babe já lançara um álbum de Hip-Hop (com outros ritmos à mistura, por imposição da editora) também nos anos 1990; MC Roger já lançara um álbum que, esteticamente, éra de Hip-Hop (ainda que também com outros ritmos à mistura) também nos anos 1990, aliás, o próprio nome, “MC”, já denunciava que o Roger éra, efectivamente, um rapper no início da carreira; o nigeriano Shortly Shaw, lançado por MC Roger, já lançara também ele um álbum de Hip-Hop aqui em Moçambique.

O que éra realmente novo (e foi inovador em Um Passo em Frente), éra a postura completamente hip-hop do álbum: a concepção do álbum como um produto hip-hop, feito na sua totalidade por hip-hoppers, dentro dos códigos hip-hop, com linguagem hip-hop, comprometido com a “causa” hip-hop, a sua apresentação ao mercado musical como um álbum que não tinha outra intenção que não fosse ser encarado como um álbum hip-hop e, acima de tudo, como um álbum independente, que não vinha pela mão das editoras – até esta altura, as editoras forçavam os artistas de Hip-Hop a incorporarem outros ritmos comerciais nos seus álbuns como forma de garantir o “sucesso” do produto.

Portanto, Um Passo em Frente não foi o primeiro álbum de Hip-Hop Moçambicano, foi, isso sim, o álbum que definiu o padrão do que deveria ser um álbum de Hip-Hop (em Moçambique).

Onde Um Passo em Frente foi primeiro, foi no alcançar do sucesso como álbum de Hip-Hop e entrada para o mainstream. Deste modo, deu origem à todos álbuns (e artistas e grupos) que surgiram após o seu lançamento – grupos como 360 e Trio Fam já haviam furado por si mesmos o seu caminho para o mainstream, contudo, ainda não eram vistos, e não se viam eles próprios, como viáveis para o lançamento de álbuns.

Depois de Um Passo em Frente, as coisas não mais foram as mesmas. Duas Caras e 100 Paus tornaram-se estrelas – mais o primeiro do que o segundo. O Hip-Hop Moçambicano reinventou-se. A Música Moçambicana mudou. Nada mais foi o mesmo, para o melhor e para o pior.


por Niosta Cossa



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Peta Teanet – King of Shangaan Disco


O melhor momento de Peta Teanet e o ponto mais alto da sua carreira. A sua contribuição definitiva para o Shangaan Disco. Obra sublime e incomparável, recheada somente de grandes músicas. E também a sua despedida, com graça e estilo, do mundo dos vivos e a consumação dos seus talentos ímpares. Trágico e, ao mesmo tempo, uma reafirmação da vida sobre a morte.

O que tornou este álbum trágico foi o assassinato de Peta Teanet após sua concepção, facto que ele prevê e canta no álbum em duas faixas seguidas. Em “Mbilu Yo Biha”, fala de alguém à quem ensinara sobre a vida e que, no momento, queria tomar sua vida. “Andi Vileli” é praticamente a sua carta de despedida, onde canta que, não tem dinheiro, não tem pai, não tem mãe, não tem mulher, não tem filho, por isso, se morrer, ninguém sentirá sua falta.

King of Shangaan Disco é um álbum paranóico, cheio de medos, obscuro, habitado por demónios e fantasmas do autor. Ainda na abertura do álbum, “Xizambani”, já Peta Teanet está paranóico, cantando sobre os que queriam apossar-se do que éra dele. Em “Khoma Masseve”, quer apressar o seu casamento com a mulher que ama, pois, desconfia que, se demorar, a amada será tomada pelos que têm mais posses e/ou estudos do que ele.

O único momento de esperança e luz do álbum vem com “Vana”, onde procura reconfortar-se com a ideia de que os filhos vão (iriam) amparar-lhe quando crescerem (crescessem).

King of Shangaan Disco éra poderoso demais quando apareceu à meio da década 1990 e assim mantém-se. Dos 3 álbuns incontornáveis do Shangaan Disco – os outros são Shaka Bundu e Madala –, provavelmente o melhor seja mesmo este álbum do grande Peta Teanet. O verdadeiro king do Shangaan Disco.


por Niosta Cossa


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Penny Penny – Shaka Bundu


Quando Penny Penny apareceu com Shaka Bundu, nos finais da primeira metade da década de 1990, mudou tudo, e popularizou – pelo menos em Moçambique – um estilo que se chamava Shangaan Disco, que entre nós ficou vulgarmente conhecido como Xigumbaza. O Shangaan Disco (ou Xigumbaza) éra uma mistura frenética do Disco ocidental (de artistas como Bee Gees, Gloria Gaynor, Donna Summer) com o Magika de Gazankulo mais a música de artistas como Chicco Twala, cantada, principalmente, em Shangana (ou Shangaan ou Changana), a língua dos machanganas do sul de África.

Com um som continuamente envolvente; ritmos altamente dançáveis; letras vulgares, que abordavam situações do dia-a-dia; e roupas, corte de cabelo e danças super extravagantes, Penny Penny, para além dos muitos fãs e imitadores que arrastou, para sempre deixou-nos com a noção de o quanto éra fundamental que as músicas tivessem ritmo e não apenas mensagem e arte. Dos Electro Bass à Ta-Basily, pode-se sentir a influência de Penny Penny.

E que álbum Papa Penny fez! Uma obra-prima que só encontra par em King of Shangaan Disco (em Moçambique, o título é King of Xigumbaza) e Madala. Para além dos hits “Shaka Bundu” e “Shibandza”, tinha obras-primas como “Ndzihere Bhi”, “Shichangani”, “Dance Khomela” e “Milandu Bhe”.

Nos álbuns seguintes, Papa Penny repetiu a fórmula que usou para este clássico da Música Africana mas não voltou jamais a atingir o nível de Shaka Bundu. E o álbum continua tão excitante quanto o éra há quase 20 anos atrás. Único!


por Niosta Cossa


NB: este álbum foi baixado do blog Awesome Tapes From Africa (http://www.awesometapes.com/2010/04/penny-penny-shaka-bundu-side-1.html).